"Deus me ajude" - Foram as primeiras palavras que eu disse ao chegar em casa. Eu enfrentaria vários problemas. Já não esperava ser diferente, estava sendo tudo tão movido a teorias e falácias entre paredes, por mentes calejadas por inveja ou supostamente por puro gosto do desgosto.
Já era tarde, mas eu não queria dormir. Não parava de pensar no sorriso elegante e tímido de Cristina. Ela já tinha 30 anos, o tempo havia passado realmente muito rápido. Apesar de me passar pela cabeça vários pecados e impossibilidades, eu não conseguia tirá-la da minha mente. Ela já fazia parte de mim, mas desconhecia tal atrevimento. As poucas palavras dela direcionadas a mim são as únicas que repito incansavelmente torneando letras no céu juntos ao lindo desenho de seu rosto:
"Você não devia estar de cochichos com amigos imaginários à essa hora da noite, Dr. Osmar" - disse ela, ao me ver pensando alto no quarto de hóspedes. Mal sabia que eu falava sobre ela comigo mesmo.
No mesmo dia mais cedo, chegara toda a família da viagem turística. Eu fiz meu caminho com um olhar fixo ao chão, hesitando em cumprimentar todos, já que meus pais eram os mais animados em recepção. Ao chegar no quarto onde eu passaria o dia, meu irmão mais novo, Henrique, me apresentara à antiga colega de vizinhança da qual eu morria de amores na infância. Mesmo antes de Henrique falar qualquer coisa, os olhos dela já denunciavam que o jeito encantador permaneceu intacto depois de 20 anos, então eu a chamei pelo nome, e a convidei pra entrar.
Sua testa franzida denunciava sua dúvida e espanto. Aproximou-se, e com um tom curioso me dirigiu a palavra:
- É você, Osmar? Já faz tanto tempo, como lembras de mim?
- Sim, Cristina. Faz tempo, mas algumas coisas não mudaram. Você continua com o mesmo jeito, e está ainda mais elegante.
- Quanta bondade. Vejo que também não mudou muito. Ainda com a mesma mania de elogios recheados para mim.
A conversa se deu até nossas novidades de 20 anos distantes serem postas em um diálogo confortável. Quem dera pudesse prolongar esse tempo por todo o dia que eu passaria sem nada. Ela não imaginara que boa parte das coisas que disse, eu não ouvi, por estar concentrado demais nos seus gestos e sorrisos.
- O conheci há um ano. Mesmo não tendo certeza sobre meus sentimentos, ainda estou com ele. É um bom rapaz, de respeito. - Disse ela.
- Que bom. É ótimo ver você feliz Cristina. Isso me faz feliz também.
- Sua amizade sempre foi importante pra mim, e isso nunca mudou.
Foram dois baques em um. Ao mesmo tempo, recebi duas notícias que fariam meus planos instantâneos virarem ao avesso. Não mais quis prolongar a conversa, era a minha vez de pensar. Antes de tudo, eu implorava a mim mesmo para que não tivesse posto esperanças demais em mim.
Logo mais, no fim da tarde, todos comemoravam uma data especial da cidade, que eu desconhecia. Chamaram todos à mesa, e finalmente eu pude ver quem era o tal homem à cortejar a Cristina.
- Vamos, sentem-se! Sirvam-se, vocês estão em casa. - Disse minha mãe, entusiasmada com a família reunida.
Eu não mexi um dedo após sentar na cadeira. Meus olhares eram divididos em esperança frente à Cristina, e angústia frente ao seu namorado. Seu nome era André Velásquez, o maior advogado da cidade. Eu não queria pensar em nada à seu respeito, mas minha presunção me dizia que ele ele é do tipo que usa palavras inflamadas com notas de cem para conquistar as pessoas. Talvez eu estivesse errado, afinal, foi a Cristina que ele conquistou.
No final do banquete, era de costume da família fazer algumas observações e desejar felicidades às pessoas. O André não perdeu tempo:
- Eu queria dizer algumas palavras. Em nome da minha futura noiva Cristina, quero desejar um bom tempo que virá com muitas alegrias pra todos. Aproveito também para dar as boas vindas ao nosso futuro herdeiro.
Ao vê-lo deslizar as mãos cuidadosamente sobre a barriga de Cristina, ainda com duas semanas de gestação, fiz uma breve análise. Em milésimos de segundo guardei a feição de ambos pra poder analisar depois. Foi só o tempo necessário para Cristina inventar uma desculpa e se retirar da mesa, diante dos aplausos da família sobre o ocorrido:
- Obrigada, meus irmãos. Se me dão licença, preciso me retirar por uns instantes.
- Já estou farto. Posso lhe fazer companhia, Cristina? - Aproveitei para indagar
- Claro, Dr. Osmar.
Felizmente, ninguém notou tão bem quanto eu a rápida insatisfação que se desenvolveu entre Cristina e a declaração de André. Eu não tive tempo para pensar. Fomos até a varanda, no 1º andar. Lá parecia ser outro mundo. Ouvíamos grilos, murmúrios das pessoas que passavam, e pássaros. As brisas do vento e do sol arrancavam minhas palavras para Cristina. Perguntei:
- Eu notei sua mudança de feição. O que aconteceu lá?
- Ah, Osmar... Está tudo muito diferente. Estou confusa, e me sinto estranha falando com você agora.
- Não fique. O que temes? Tem a felicidade nas mãos, porque não a agarra? Agora você terá um filho... Nada pode ser mais...
- PARE. Não fale assim. Eu tenho uma confissão a fazer... - Interrompeu Cristina, levantando a cabeça e deixando cair uma lágrima dos olhos.
- Desculpe, não quis ser grosseiro, nem te magoar. Estou te ouvindo, sempre estive.
Naquele momento, eu soube que algo a estava incomodando. Tudo que eu mais queria era ouvir, porém, não queria forçá-la a falar.
- Amor, o que houve? - Disse André, ao chegar de repente na varanda.
- Não foi nada, André. Apenas uma irritação. Já estava indo cuidar disso.
- Você estava chorando! O que aconteceu? Ele fez algo à você?
- Pare André. Osmar não fez nada. Nós só estávamos conversando.
Nossa conversa havia sido adiada, e pra piorar, o futuro noivo da mulher que não sai da minha cabeça estava com um profundo ódio repentino de minhas supostas ações impensadas.
Fui pro quarto de hóspedes. Eu tinha um quarto, mas alguma coisa me dizia pra ficar pensando num canto mais reservado do que lá. Foi o que eu fiz. Fui até lá e sentei na cadeira de casal que era do Jardim. Estava tão distraído que não notei a porta aberta. E minha distração me fez pensar alto demais.
- Não tenho coragem... Daqui a alguns meses ela estará feliz. Não comigo, porém está esperando o filho de um bom rapaz e merece ser feliz. Esperarei até o feriado acabar, deixarei uma carta para Cristina, ainda não sei o que vou falar, mas eu...
- Você não devia estar de cochichos com amigos imaginários à essa hora da noite, Dr. Osmar. - Disse Cristina, emendando um sorriso vago e suspeito às palavras.
- Desculpe Cristina. Só estava pensando alto. - Falei, tartamudeando e nervoso.
- Eu ouvi. Estava passando para tomar um pouco de leite, não estou conseguindo dormir. Acabei ouvindo algumas de suas palavras...
- Você... Ouviu? Cristina... o que eu disse não tem sentido. Seja lá o que tiver ouvido, esqueça.
- Não posso esquecer, Osmar. As pessoas não esquecem rápido do que vem pensando há dias.
- Como assim?
- Antes de virmos pra cá, sua mãe me falou de você. Eu não queria vir, mas ao saber disso, obriguei o André a vir comigo, para não parecer indelicadeza. A verdade, é que o que você disse me fez sorrir como não tinha feito há meses. Só sorri assim, quando vi a nossa foto com o Henrique, há duas décadas. Éramos felizes, sorríamos com tudo, bancávamos os perfeitos. Hoje a realidade é diferente. Muitas vezes não conseguimos tudo que queremos.
- Não estou entendendo, Cristina. - Emendei levando a mão direita à boca, cobrindo-a pra evitar que visse meus lábios trêmulos.
- Estou falando de você, Osmar. Suas poucas palavras, e o tom que usou ao falar de mim, me fizeram perceber que nós temos uma coisa muito especial em comum: os desejos. O filho que estou esperando, será amado por ser meu. Mas a história não é a que eu sonhava com 12 anos. "Cristina e Osmar, pra sempre." - Falou, olhando para a barriga e deixando escapar poucas lágrimas.
- Eu não sei o que dizer...
- Não diga nada. - Disse ela, se aproximando da cadeira e ocupando o espaço vazio - Posso me sentar?
- É.. é claro.
- Osmar, você não imagina o alívio que senti ouvindo o que você disse. Não vá embora. Fique, vamos tentar resolver as coisas com calma.
- Não é tão simples. Você está grávida, e seu futuro noivo não vai gostar de saber que viajou pra se decepcionar...
- Eu vou ter a conversa mais difícil da minha vida, com ele. Mas vou falar. Vou propor que ele visite nosso filho quando precisar, com um tempo nós seremos definitivamente amigos, vejo muitos pais que tomam essa decisão e...
- Cristina, ouça. - Falei, segurando suas mãos e olhando fixamente pros seus olhos - Eu não devia ter vindo. Você estava tendo uma boa vida, não posso destruir tudo assim, eu simplesmente vou embora, tudo fica como estava, não precisamos fazer sacrifícios.
- Eu amo você, Osmar. Sempre amei. É com você que quero passar o resto dos meus dias. Pense bem. Estou indo deitar, já demorei por aqui.
Era uma situação difícil. Pela primeira vez, eu ouvi tudo que queria, e no fim, me senti muito mal. Eu sabia que estava batendo de frente comigo mesmo, e finalmente podia ter tudo que queria... Mas eu não sei o que minha família pensaria de mim. "Um destruidor de casamentos"? Eu não queria ser visto assim. Então me dei conta que, humanos são tão humanos, que mesmo na certeza dos desejos, erram na raiz mais pecaminosa do desejo e acabam se dando conta que não estavam nem perto da certeza do que queriam. Eram muitas consequências, eu não podia simplesmente dizer "Sim, seremos felizes" e esquecer do resto. Seria como trocar todo o amor fraternal e de família por um amor de carne, sexual e duradouro. Seria a decisão mais difícil da minha vida.
Na madrugada do dia seguinte, eu parecia estar completamente certo da minha decisão. Eu viajaria para a casa dos meus primos, tentaria outra vida profissional por lá, e deixaria uma carta para Cristina dizendo pra ela tirar uma noite pra pensar mais do que o que pensou em minutos.
Com as malas já prontas, Cristina me viu saindo de repente e falou com um tom de desespero:
- Osmar! Não acredito no que estás prestes a fazer...
- Você vai entender quando ler a carta na bancada do quarto. Cristina, eu não estou te deixando. Eu apenas estou te dando um tempo, você vai precisar muito. Você está carregando uma nova vida. Seria no mínimo injusto com ele, crescer com uma família separada. Ele merece o amor que eu em toda minha vida quis dar a um filho. Mas só você vai saber o que fazer. Eu estarei por perto, acredite, está sendo tão difícil pra mim quanto pra você.
- Está certo, Osmar. - Disse ela, pondo os lábios pra dentro e se pondo a chorar.
Diante do silêncio entre mim e ela, eu fui me retirando, e em seguida fui surpreendido com um beijo. Um momento que esperei há 20 anos, talvez estivesse ali sendo selado o destino meu e de Cristina. Eu não reagi, simplesmente me pus a sorrir e me retirei em seguida, dizendo:
- Você sabe onde me encontrar.
O tempo passou, e eu fui tentando conciliar as diversões dos amigos com meus eternos pensamentos em Cristina. Eu percebi que a estava perdendo, mas estava aliviado por ter feito a coisa certa. A minha parte estava terminada. Restava ao tempo me trazer os resultados do meu ato mais sensato da vida. Então, passei a entender que, a felicidade está mais perto do que parece. Você só precisa eliminar as falsas profecias e pensamentos que atrapalham o destino. Eu só precisava engatilhar meu rumo e seguir sabendo onde ele ia dar. Agora eu sei, e me sinto bem.
O fim do ano estava próximo. Logo mais celebraríamos a chegada de 1971. Havia muitas festas, e eu estava conseguindo me divertir. Eu estava na frente da casa, conversando e vendo crianças brincarem. Estava distraído, olhando para o chão e pensando em diversas coisas. Um dos meus primos viu alguém se aproximar.
- Quanta formosura - falou o João, admirado e com um largo sorriso
- Com licença. É aqui que mora o Osmar?
- É sim senhora, é esse moço aqui, meu primo!
Eu estava feliz. Mas só Deus sabe quão feliz fiquei ao ouvir aquela voz. Posteriormente, ao ver aqueles olhos, e aquele sorriso de sempre. Ela me abraçou com infinita afeição. Se ela estava lá, não poderia ser por outro motivo: Tudo estava bem.
- Meu amor, senti muito sua falta. - Falou Cristina, chorando como nunca antes.
- Não chore. Conte-me, o que aconteceu por lá?
- Tenho boas novas. Sua família mandou lembranças, desejou felicidades. Estão todos muito admirados com sua atitude... Elogiaram sua posição, e respeitaram sua decisão. O André ficou desapontado quando eu falei do que eu queria. No final das contas ficou satisfeito por não ter sido traído durante todo esse tempo. Agora ele está bem, inclusive arrumou um outro partido. Mandou lembranças também, e disse que nos visitaria quando a criança chegasse.
A partir daí, fiquei completo. Pensei por vários dias sobre o tempo que passei distante dela. Pensei sobre minha decisão, a majoritária, a mais importante. Pensei em como seria se tudo fosse diferente. Não seria tão perfeito. Em meio a tropeços e pedidos presos de socorro, eu não precisei de outro conselheiro a não ser o coração. Enfrentei o meu maior desejo pra conservá-lo pro futuro. A igualdade entre duas almas só se confirma quando elas suportam décadas absolutamente preservadas e confirmadas diante da outra.
- Então, filho, essa foi a minha história. Espero que tome a decisão certa em relação à sua garota. E espero que saiba que você tem os conselhos do seu pai... É... Seu padrasto...
- Meu Pai. Eu tenho orgulho de você. E veja como sou... Tenho dois pais e ando reclamando de problemas amorosos. Na verdade, não sei o que é isso ainda. Só tenho 21 anos, preciso viver mais pra saber o que é amar de verdade.
- A idade não importa filho. Fique certo, você saberá quando estiver amando alguém. Seu coração conta pra você.
- Eu te amo, pai. Diga à mãe que eu a amo quando chegar.
- Também, filho. Pode deixar. Dizer que amo a Cristina é a melhor parte do meu dia, pro resto da minha vida.

perfeito, sem mais.
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